Havia naquela noite um demônio em
sua cama.
A pequena enxerga, ao longe, cabeças que
passavam. Transeuntes que perambulavam, sem atrapalhar o êxtase que lhe
envolvia.
E a unha se tingia ao raspar o
suor da pele cinzenta.
Trabalhara em uma lavanderia
durante o dia. Mas sua pele insistia em ter cheiro de prazer.
- Cadela – pensava o clássico chinês, dono da
lavanderia.
Comeu no almoço o feijão com
arroz pré-aquecido no forno de microondas. Feijão, arroz superficialmente
aquecidos. O centro fervia, as bordas frias. E cada grão que engolia manchava o
garfo de cabo branco com seu batom rosa Pink barato.
Ansiava por findar o expediente,
pois o publico passante lhe excitava e perante o demônio que a habitava imersa
naquele inenarrável espetáculo, despir-se-ia frente ao espelho.
Não se sentia mal e gostava de
sentir o seu próprio gosto.
Dedos, cheiros, cabelos longos,
negros aos cachos que grudavam no rosto que gotejava orvalho de suor.
Dançou embevecida de sua própria
saliva, enquanto aquele que habitava em sua cama tocava lhe as pernas de
maneira a deixar marcas.
Sua cabeça palpitava personagens,
que antes domou por entre as pernas. Envaidecida pelo alto numero, deleitava
toques nus. E em meio a tantos rompantes de furor, uns lhe molhavam a nuca,
outros faziam frigida, em busca de outro homem que a libertasse...
Há muito já não estava com a
calcinha velha e desbotada, nem ao menos frente ao espelho.
Preferia agora se instalar abaixo
do chuveiro gotejante, ora frio, ora de arrancar-lhe o couro. Ainda assim
exalava prazer.
Tinha sede de si própria. Não
mais sentiu os homens, não os desejou.
Não lhes deu prazer.
O seu próprio sabor lhe servia
bem.
Nem o demônio romperia o porvir.
Tocou-se como nunca antes. Lambeu os dedos gostou do sabor. A febre súbita lhe
subiu a raiz dos cabelos.
Eis o fim da busca. Ninguém iria
tão longe por ela...
Com a carne estremecida, sentou
no chão. O chuveiro já não pingava quente. Acabou o banho com espuma nos negros
e cacheados fios de cabelo.
Vestiu o vestido justo florido,
perfumou-se, sandália e batom rosa barato. Foi encontra-se como rapaz do
cortiço, que a instigou aquela tarde. Tomaram algumas doses de lubrificantes
sociais. O rapaz já não enxergava flores, apenas curvas e pensou: - Cadela.
Naquela noite, deitou-se e dormiu
sozinha.
Nem seu demônio a acompanhou.

Aê moçona!
ResponderExcluirParabéns!