segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um conto vulgar.



Havia naquela noite um demônio em sua cama.
 A pequena enxerga, ao longe, cabeças que passavam. Transeuntes que perambulavam, sem atrapalhar o êxtase que lhe envolvia.
E a unha se tingia ao raspar o suor da pele cinzenta.
Trabalhara em uma lavanderia durante o dia. Mas sua pele insistia em ter cheiro de prazer.
 - Cadela – pensava o clássico chinês, dono da lavanderia.
Comeu no almoço o feijão com arroz pré-aquecido no forno de microondas. Feijão, arroz superficialmente aquecidos. O centro fervia, as bordas frias. E cada grão que engolia manchava o garfo de cabo branco com seu batom rosa Pink barato.
Ansiava por findar o expediente, pois o publico passante lhe excitava e perante o demônio que a habitava imersa naquele inenarrável espetáculo, despir-se-ia frente ao espelho.
Não se sentia mal e gostava de sentir o seu próprio gosto.
Dedos, cheiros, cabelos longos, negros aos cachos que grudavam no rosto que gotejava orvalho de suor.
Dançou embevecida de sua própria saliva, enquanto aquele que habitava em sua cama tocava lhe as pernas de maneira a deixar marcas.
Sua cabeça palpitava personagens, que antes domou por entre as pernas. Envaidecida pelo alto numero, deleitava toques nus. E em meio a tantos rompantes de furor, uns lhe molhavam a nuca, outros faziam frigida, em busca de outro homem que a libertasse...
Há muito já não estava com a calcinha velha e desbotada, nem ao menos frente ao espelho.
Preferia agora se instalar abaixo do chuveiro gotejante, ora frio, ora de arrancar-lhe o couro. Ainda assim exalava prazer.
Tinha sede de si própria. Não mais sentiu os homens, não os desejou.
Não lhes deu prazer.
O seu próprio sabor lhe servia bem.
Nem o demônio romperia o porvir. Tocou-se como nunca antes. Lambeu os dedos gostou do sabor. A febre súbita lhe subiu a raiz dos cabelos.
Eis o fim da busca. Ninguém iria tão longe por ela...
Com a carne estremecida, sentou no chão. O chuveiro já não pingava quente. Acabou o banho com espuma nos negros e cacheados fios de cabelo.
Vestiu o vestido justo florido, perfumou-se, sandália e batom rosa barato. Foi encontra-se como rapaz do cortiço, que a instigou aquela tarde. Tomaram algumas doses de lubrificantes sociais. O rapaz já não enxergava flores, apenas curvas e pensou: - Cadela.
Naquela noite, deitou-se e dormiu sozinha.

Nem seu demônio a acompanhou.

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