Poderia sentar-me aqui e lhe escrever sobre todos os meus erros. Ou se lhe interessa os mínimos acertos. Mais a frente poderia lhe citar os deleites e prazeres. Mas não os farei porque neste instante só posso descrever aquela noite de lua alaranjada.
O telefone toca mais uma vez. Era você, tentando contornar a última ligação. Eu me chateio. Não resisto.
Já estou no carro com sua mão na minha perna. Você dizendo que só existe um lugar para conversarmos a sós... Sim, insistimos em fingir que este encontro é apenas para: conversa casual sobre nossas vidas enquanto queimamos um.
Acende o baseado. Desta vez você é quem reclama do meu sumiço. Sei que, o que sente não é falta, é somente medo de perder sua válvula de escape. Isso quase me angustia, se eu não andasse tão canalha quanto.
Reclama do fumo. É, parece que desta vez invertemos tudo. E quando a fumaça envolveu todo hotel, resolvemos que era hora de começar.
Um beijo inflamado na boca seca, sem saliva. Eu gosto é dessa oportunidade de ser tão canalha quanto. Tanto cheiro, entre mordidas e línguas. Ouço os palavrões ao pé do ouvido. Que excitam por revelarem seus desejos. Acho graça das bocas que se procuram e não se alcançam. O único sentimento que se estabelece é de uma suposta amizade, e sabemos no fundo o gosto um do outro e da farta saudade que se sente.
Vejo seu rosto se transfigurar em tesão, mantenho meus olhos abertos. Quero me lembrar de cada toque. Mesmo quando me vira os olhos, segurando os cabelos no pé da nuca.
Pergunto o que você quer e não ouço resposta, assim atendo fielmente. Eu sei como você goza.
Penso ser fácil lhe ter nas mãos, quando habitas entre minhas pernas.
Já não quero.
São dedos que sentem gostos.
E sinto teu gozo. Ao fundo o som de um carro de polícia. Parecia estar dentro do hotel. Só paranoia de beck ruim. O medo de sair do quarto, nos permitiu que repetíssemos conversas que outrora já conhecíamos. Sim, tudo isso já ouvimos antes. Tudo se entende e pouco se compreende.
Agora já tanto faz. Doía ouvir todas as conversas repetidas, mas já não podia... Já não tentava. Só calava.
Não vou terminar a descrição daquela noite com tristeza, não posso, porque agora tanto faz, não é triste.
Tanto faz.
No fundo é gostoso fingir que, tudo isso, ainda faça alguma diferença. E é por isso que repito: "não sou de ferro".
A realidade é que ainda gosto do gosto, mas sei que posso desfrutar também de outros corpos e eles de mim.
Não, eu não sou de ferro.

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